Temporada de Outono 2020

Sábado, dia 10 de outubro, no Teatro Taborda Círculo Cultural Scalabitano

Depois de ter estreado em Almeirim, “Obrigado Bernardo Santarém de Portugal”,
apresentação ao público escalabitano, numa sessão única, no Teatro Taborda / Círculo Cultural
Scalabitano, no próximo dia 10 de outubro pelas 21H30. O espetáculo será antecedido da
abertura de uma exposição de pintura de Fernanda Narciso, sobre o autor e os seus
personagens, incidindo sobretudo em três peças: O Crime de Aldeia Velha, O Lugre e o
Bailarino (extensão de “Tudo em Mim” patente na sala de Leitura Bernardo Santareno).
Espetáculo, de tributo do Veto Teatro Oficina ao grande dramaturgo de Santarém, inclui
poemas, excertos de peças e cartas (enviadas ao pai) do grande autor, além de pequenos
textos de Fernanda Narciso, José Ramos e Nuno Domingos, entrecortados por seis coreografias
desenhadas e interpretados pela coreografa e bailarina Mafalda Murta.
O que sobretudo se procura aproximar do público, são os ambientes literários de vida de
Martinho do Rosário. O amor, sobre o qual Fernanda Narciso escreveu um dia “pessoas
apaixonam-se por pessoas e não por sexos”, a religião, (onde ponderaram uma mãe
profundamente católica e um pai visceralmente anticlerical), a luta interior, a necessidade de
escrever, de ser artista, (ainda que andando descalço sobre vidro), a poesia, quase sempre
premonitória em relação à escrita teatral, a privação da liberdade, com uma censura sempre
presente e sempre proibitiva.
Documentando tudo isto, uma capacidade rara de olhar a realidade, ler a sua essência,
quantas vezes a partir de pequenas noticias, de fragmentos de realidade que fazem despoletar
a trama, criam uma tempestade de ideias e projetos e, impulsionam uma escrita rica,
profunda, onde as emoções têm um espaço e um tempo que vai alem dos limites dos seres
normais e se projetam em ficções retratando a mais pura realidade, numa busca constante por
ser livre.
Impossível ficar impassível a uma tão descomunal capacidade de inquietar, de surpreender, de
nos trazer o melhor e o pior de cada um, afirmando-se de uma coragem, de um desapego, de
uma expressividade, absolutamente arrasadoras.
Não admira que numa sociedade dominada, fechada, bafienta, controlada em todos os seus
impulsos, como era a nossa antes de abril de 1974, tivesse tido tantos problemas.
O espetáculo que o Veto apresenta tem uma dramaturgia fragmentária sem uma narrativa
cronológica, mas antes procurando ir apresentando ambientes pessoais e sociais de uma vida
dedicada aos outros, seja pela vida da profissão de médico, seja pela escrita, e onde a palavra
do grande autor se vai articulando com a linguagem corporal da bailarina e coreografa Mafalda
Murta que, para este espetáculo, criou especialmente seis coreografias: Amor, Corrida,
Inverno, Sofrimento, Mar e “Je suis Malade”.
Bernardo Santareno foi uma vítima dos tempos que viveu, sempre preso nos túneis da
Liberdade, para recorrer a outra frase de Ary dos Santos, não estranha por isso que o
espetáculo termine com a afirmação dessa necessidade essencial de ser livre, “Livre como o
sol, livre como o vento, livre como só a liberdade”.

Nesta data em que se celebra o centenário do seu nascimento, a justa homenagem que o
teatro lhe procurou prestar, têm sido prejudicada pela pandemia que todos vivemos e na
passada semana, pela perca da sua principal impulsionadora, a amiga e atriz Fernanda Lapa, a
quem também desta forma prestamos a nossa singela homenagem.
O espetáculo tem direção artística de Nuno Domingos que integra o elenco de atores,
conjuntamente com Angelina Madeira e Francisco Selqueira. As Coreografias e Dança são de
Mafalda Murta. A Técnica (Iluminação e Som) estão a cargo de Francisco Cercas e José Carlos
Jordão.

Nuno Domingos 09.08.2020